• Spike Lee e Camila

    Em um breve momento e único, durante as gravações do documentário "Go Brazil Go", em Salvador/Bahia.

  • Mulheres Lindas

    Em um bate papo com a jornalista Luciana Barreto e com a fotógrafa Natasha Montier as energias são recarregadas, os sonhos são compartilhados e muito aprendizado em cada instante de suas falas.

  • Mundo do Cinema

    No 8º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe Zózimo Bulbul, em maio e junho de 2015, no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A dor é verdadeira. A causa é a minha existência

Artigo feito para revista eletrônica Cia Ponto Art de Salvador
Por Camila de Moraes 






Com esse sentimento compartilho com os leitores da revista eletrônica Cia Ponto Art, de Salvador/Bahia, essa reflexão que tanto me angustia, essa dor verdadeira, que nos mata a todo instante, pois estamos falando do genocídio da juventude negra. Segundo o relatório da CPI Senado sobre o Assassinato de Jovens no Brasil, em meados de 2016, mostrou que todo ano 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. 82 jovens são mortos diariamente. 77% são negros. Por essa razão gritamos que vidas negras importam, a minha vida importa, a vida da minha família (população negra) importa. Então parem de nos matar. 



Seguindo na reflexão do nosso título, "a causa é a minha existência”, conseguimos no dia 11 de maio de 2017, concretizar um projeto de vida que durou oito anos para ser concluído, o documentário de longa-metragem chamado “O Caso do Homem Errado”. A pré-estreia do filme ocorreu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que segundo dados do relatório Desenvolvimento Humano para Além das Médias, divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no início do mês de maio deste ano, a capital gaúcha é a cidade com maior desigualdade entre negros e brancos no Brasil. A obra fílmica aborda um caso específico que aconteceu no dia 14 de maio de 1987 com operário negro Júlio César de Melo Pinto que foi executado pela Brigada Militar do estado por se enquadrar no perfil que a sociedade considera suspeito e violento. Nessa data havia ocorrido um assalto em um supermercado e Júlio César, que morava nas proximidades teria ido conferir o conflito, porém ele tinha epilepsia e nesse momento teve uma crise, alguns populares o acusaram de fazer parte do assalto. Sob os flashes do repórter fotográfico Ronaldo Bernardi, que registrou toda ação policial, colocando Júlio César vivo dentro da viatura com apenas um machucado na boca, devido ao estamento que sofrerá na hora por alguns policiais. Em seguida, o repórter se dirigiu para o Hospital de Pronto Socorro para registrar a chegada de Júlio César ferido nessa ação. Porém,  Bernardi levou sete minutos para chegar no hospital e a viatura levou mais de 30 minutos e ao chegar no HPS Júlio César estava morto com dois tiros. A partir dessas fotos, Júlio César vivo dentro da viatura e morto no HPS, foi possível constatar que houve uma execução no percurso.  

Esse caso ganhou notoriedade na época e ficou conhecido como “O Caso do Homem Errado”, o mesmo título do
documentário. Foi uma luta da família, do movimento negro em conjunto com o movimento de direitos humanos, que conseguiram comprovar o assassinato, descobrir os policiais envolvidos e exigir justiça do estado. Porém, até os dias atuais a família de Júlio César nunca foi indenizada financeiramente, é preciso lembrar que dinheiro nenhum irá trazer uma vida de volta, mas é extremamente necessário para tentar manter a família estruturada financeiramente. A minha dor permanece viva após trinta anos, pois quantos Júlios César são assassinados diariamente em nosso país e não tem nem o direito de serem enterrados. A dor de quem fica por trás desse contexto todo é muito cruel e dura. Essas mortes desestrutura famílias inteiras, desestrutura uma sociedade. Nesses episódios aparecem as vítimas ocultas, as mulheres, mães, esposas, irmãs, que permanecem lutando para sobreviver. No caso do documentário, Dona Maria Sebastiana (mãe) e Juçara Pinto (esposa), são as nossas guerreiras nessa luta, devido a sua força seguimos na batalha por nossa juventude negra viva. 

O racismo no Brasil é estrutural. O documentário “O Caso do Homem Errado” tem a proposta de abrir uma reflexão com a sociedade sobre o genocídio da população negra. Com esse pensamento, não fizemos apenas uma exibição do filme no dia 11 de maio de 2017, antes fizemos questão de fazer um ato político na Esquina Democratica, no centro de Porto Alegre, e seguimos em marcha até a Cinemateca Capitólio Petrobras. Com cartazes que levavam nomes de jovens negros mortos ou que estão em processo de injustiça, sempre com a mensagem que vidas negras importam. O filme agora irá fazer uma carreira por festivais e a sua previsão de entrar em cartaz, nacionalmente, é para o início de 2018. 

Clique aqui para acessar a revista Cia Ponto Art

https://issuu.com/revistapontoart/docs/revista_ponto_art_-_7___edi____o-__

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Procuramos personagens - Nos apresente a sua família

Oi Pessoal, estamos com um novo projeto de filme e para tanto estamos procurando personagens. Se você acha que na sua família existe aquela pessoa que com certeza seria um personagem de cinema, nos apresente, conte um pouco sobre ela e seus trejeitos, vai que a figura dela faça parte da nossa história também e entre para essa família doida que tenta fazer arte por meio do audiovisual.

Conte aqui nos comentários, okay?! Aguardamos a sua colaboração.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Aos encontros da vida: Um breve passeio na Chapada Diamantina


Foi breve, mas intenso e uma experiência muito boa. Há sete anos morando em Salvador sempre escutei falar muito da Chapada Diamantina, mas até o momento não tinha ido ao local por falta de organização mesmo, sempre deixando para depois, um dia, uma viagem para se fazer antes de ir embora da Bahia e etc e tal. Eis que o maravilhoso site Couchsurfing age novamente em minha vida e como sempre tão maravilhoso, traz surpresas incríveis.



Quando fui fazer a residência em NYC e não tinha local para ficar me apresentaram o site que, no final não usei para hospedagem, mas usei para outros contatos, entre eles ensinar português para conhecer uma New York que não está nas mídias, ou para fazer piquenique no Square Washington Park, ou ainda para curtir umas festas com pessoas de todos os lugares do mundo com direito a ir no palco e dançar com o cantor. Mas voltando ao Brasil, depois dessa experiência continuamos hospedando as pessoas no Ap. Cheio de Assunto em Salvador e dessa vez conhecemos o espanhol Francis Perez, but Francis já sabia que iria fazer essa viagem pela América então nós já estávamos em contato há mais de um ano e cada um acompanhando a trajetória do outro pelas redes sociais. As nossas viagens (mas dele que as minhas) e sempre conversando. 


Eis que ele chegou na Bahia e a hospedagem em Salvador já estava garantida. Em uma conversa na cozinha querendo saber por quais locais já tinham ido e para aonde ia ele pergunta: - Você já conhece a Chapada Diamantina? Respondo que não, mas que tinha vontade de conhecer um dia, pois todo mundo fala que é lindo e ele faz o convite: - Então, vamos para Chapada Diamantina? Respondi: - Porque não? Vamos! Foi simples assim. Resolvemos as datas, ele planejou os roteiros, arrumei a mochila na última hora e antes ainda perguntei: - Você não é nenhum assassino, né? kkkkk



Achei que estava preparada para essa aventura, sou uma pessoa que adora o novo, but meu deuzu "guria de apartamento" indo para primeira trilha de verdade foi bem engraçado. Isso que foi leve a primeira parte do roteiro. Não pense que estou reclamando, porque foi tudo maravilhoso, mas percebi que realmente preciso me organizar para uma atividade dessas. Me preparar física e psicologicamente para tal aventura.


O nosso roteiro era de uma semana com várias trilhas, rios, cachoeiras, hostel e até pedir carona se fosse preciso. Bom, começamos leve. Chegamos em Lençóis querendo fazer as trilhas sozinhos, mas nenhuma era recomendável. Procuramos várias agências até chegar na Associação e conhecer o melhor guia da cidade, Hernandes Muniz, (super recomendo), nos deu várias opções de passeio, negociamos valores, contou histórias e nos apresentou o Quilombo do Remanso. Pontualmente chegou para nos buscar no dia seguinte cedinho e percebeu a minha disposição para fazer trilha e ia num ritmo mais tranquilo.


Enfim, conheci lugares lindos por demais. Conheci um pouco da história daquela população. Fiquei chateada quando ouvi a dona do hostel querendo saber quem é que tinha feito o passeio por tal valor, como que eles conseguiam, se eles tinham carro e que um dia tinham que evoluir. Porém, fiquei muito contente ao ouvir a história do meu guia kkkk (sim já é meu, pois quando voltar vamos de Hernandes Muniz novamente), falando que trabalha há 21 anos nessa profissão. Que depois da proibição do garimpo essa era a única forma de renda e que ele tinha orgulho em ser guia, pois ele viveu aquela história, daquele local, diferente dos guias que estão chegando agora que aprendem a história nos livros, pois ele fez parte daquilo, o seu avó era garimpeiro. Bom fiquei muito emocionada mesmo. Ele e a família estão ampliando os negócios, fala mais de um idioma, aceitam cartões, carro próprio, e logo mais uma residência para hospedar turistas. No trajeto encontramos outros guias, acredito eu que também da Associação, que ouvia eles se referirem ao Hernandes como mestre, porque eu sou dessas né, escuto as conversas dos outros. Ver uma família negra resistindo firmemente nesse meio turístico dominado por pessoas brancas e de fora da região me deixa muito satisfeita e só tenho vontade de recomendar os seus serviços. Nós por nós. Isso faz toda a diferença.


Bom, eu não consegui completar o roteiro com Francis. Fiquei muito cansada, com dores nas pernas, passei muito frio nas noites de inverno na Chapada Diamantina, nem meus tênis resistiu e precisei me despedir na rodoviária de algum lugar de Francis. Subi no ônibus de volta para Salvador e ele seguiu viagem. Quem sabe um dia nos encontramos novamente, mas com a certeza que vivemos momentos maravilhosos desfrutando de uma natureza brasileira exuberante.


Só agradeço a Francis pelo convite, ao guia Hernandes Muniz pela trajetória e a Chapada Diamantina pela beleza. Em breve voltaremos para completar o roteiro.

Hernandes Muniz: (75) 9.9966.1525 / (75) 9.9904.1808































quarta-feira, 5 de abril de 2017

Hoje olhei nos olhos de um assassino




Encarei com um olhar firme, com a respiração segura, tentando não demonstrar medo, porém no ar havia um cheiro de tiros, dois a queima roupa para ser mais específica, havia uma execução de um jovem negro nas mãos daquele cidadão que estava em minha frente. E ali estava eu querendo obter uma explicação e ao mesmo tempo estava encarregada, naquele momento e, em todos os minutos da minha vida, pela proteção do meu corpo, como diz Ta-Nehisi Coates, no livro “Entre o Mundo e Eu”, pois sabemos que os departamentos de polícia de meu país fora munido da autoridade para destruir meu corpo, destruir os corpos de meus semelhantes que tem a pigmentação da pele mais escura. Porém, esses destruidores raramente serão considerados responsáveis, pois eles são apenas homens que fazem cumprir os caprichos de meu país.

Então, depois de um período de investigação chegamos ao seu refúgio. Como se diz hoje em dia “eu tremi na base” e, em questões de segundos, senti as mais diversas sensações que pode-se imaginar. Um calor tomou conta de meu corpo, porém o suar que escorria de minhas mãos era extremamente frio, uma dor imensa surgiu em minha barriga como se não pudesse conter o líquido que poderá escorrer por minhas pernas. Indaguei, tentei argumentar e recebi uma resposta, uma resposta de como age a sociedade na qual vivo e ao bater o portão e dar as costas algo aconteceu … ele voltou. Eu respirei fundo e ele apresentou o racismo institucional da corporação. Novamente foi embora, mas dessa vez não voltou mais. Parecia que não escutava a minha voz alta do lado de fora do portão solicitando por mais respostas. Senti uma dor no peito. Senti raiva. Fiquei confusa e só conseguia pensar como seria a sensação de uma pessoa que sabe que irá morrer, mas sem saber o motivo, sem sequer ter o direito à defesa.

Houveram mais duas tentativas fracassadas, pois assim como eu outras pessoas anseiam por estas respostas. Mas não foi apenas um assassino, houveram outros. Falei com um por telefone e encontramos outro em um lugar público. Em seu tom de voz, em um exemplo para elucidar, então um caso fictício, um forte tom de ameaça pairava no ar. No entanto, milagrosamente, ninguém estava envolvido no caso.

Moramos na mesma cidade, andamos nas mesmas ruas e o meu olhar cruza os olhos de assassinos frios e calculistas. O meu irmão de cor foi morto, o padrinho de meu irmão foi morto, o irmão de criação de meu pai foi morto, o marido da amiga de minha mãe foi morto, uma família inteira foi morta, uma sociedade é executada a todo instante e é preciso proteger os nossos corpos, os nossos corpos negros, pois o nosso sangue escorrega pelo chão neste instante e para não nos afogarmos em um mar vermelho continuaremos olhando nos olhos dos assassinos e exigindo justiça.