• Spike Lee e Camila

    Em um breve momento e único, durante as gravações do documentário "Go Brazil Go", em Salvador/Bahia.

  • Mulheres Lindas

    Em um bate papo com a jornalista Luciana Barreto e com a fotógrafa Natasha Montier as energias são recarregadas, os sonhos são compartilhados e muito aprendizado em cada instante de suas falas.

  • Mundo do Cinema

    No 8º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe Zózimo Bulbul, em maio e junho de 2015, no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Eu, ela e o tal segundo lugar

Descobri nesse caminhar que tenho uma companheira, no mais amplo sentido da palavra. Escrevo esta carta virtual, porque do lado de cá da tela, percebo que, mesmo à distância, a nossa relação acontece, de uma forma linda, intensa e com todas as dificuldades que podem existir, com muitas brigas, com argumentos fortes para sustentar o ponto de vista de cada uma, com viagens e loucuras. Analisei, pensei, refleti e desvendei que acho que assumimos o nosso compromisso sério no final do ano de 2015, quando você, já sabendo do meu sonho, apostou nele e quis vê-lo se concretizar, quis fazer parte, porque um sonho sonhado só é apenas um sonho, um sonho no coletivo se transforma em realidade, e você fez isto ao me propor em darmos o primeiro passo, naquele final do ano de 2015 para lançarmos a campanha de financiamento coletivo para a produção de um documentário. Tentamos por alguns meses, o ano virou, chegamos em 2016 e não atingimos a meta e mesmo assim você não desistiu de mim, do meu sonho, do nosso projeto, pois ele se tornou nosso. 
Aí, como se vivêssemos a canção da banda de
reggae gaúcha, Produto Nacional, fizemos de “outras portas, outros espaços, fazer do mundo estrada dos nossos passos” e sabendo que “o amor constrói, a violência destrói, tenha consciência do que você acredita”, conseguimos contar essa triste história de violência policial, acredito que de uma forma digna, por meio do audiovisual. Mas o que seria esse caminhar, esse caminho, deslocamento que fizemos no mundo? Buscando referências em nossa ancestralidade, sabemos que a estrada para atém de um recorte físico é uma dimensão de mundo. Segundo professor de filosofia e bioética da Universidade de Brasília (UnB), Wanderson Flor do Nascimento, a estrada não é coisa e por tanto o caminho aponta direções, indica percursos, convida a caminhar juntas, o que temos feito desde 2015 ao assumir a nossa relação publicamente. O professor Nascimento nos ensina que para além “de um destino, o caminho é um destinar-se, sempre em movimento, pois nada está pronto no caminho enquanto o caminhar não se põe em marcha”. 
Assim percebemos que o caminho é sempre coletivo. Se nós chegamos até aqui hoje, realizando, em pleno ano de 2018, o circuito comercial nacional do documentário de longa-metragem “O Caso do Homem Errado”, foi porque caminhamos num coletivo, porque sabemos que os nossos passos vem de longe, como nos ensina o provérbio africano, que muitas mulheres negras vieram antes de nós e muitas estão aqui, conosco, produzindo obras magnificas. Quando nos colocam nesse segundo lugar, neste posto tão pesado, que as pessoas julgam se é real ou não, ao invés de dar apoio, mais uma vez eu percebi em você o meu elo, o meu ombro amigo, a minha fortaleça, que com os mil áudios, me davam forças para responder todas as questões, para ficar firme diante dos outros, mesmo que aqui por trás, nos bastidores estivesse morrendo de dor de barriga, me acabando no choro, você estava e está ao meu lado mesmo estão aí no Sul no Brasil e eu no nordeste do país. Você se tornou uma irmã que a vida me deu e que juntas brigamos uma pela outra, brigamos uma com a outra, descobrimos o objetivo maior e unimos forças para realiza-lo. 
Desta forma, entramos juntas para a estatísticas, espaço que decidimos ocupar, uma
estratégia política adotada, né Amore? Pois, segundo dados apresentados no final de janeiro desse ano pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) que fazem parte do estudo “Diversidade de Gênero e Raça nos lançamentos de 2016”, analisou 142 filmes lançados comercialmente no respectivo ano, conclui que mesmo a população brasileira tento 51% de mulheres e 54% de negros, os homens brancos dirigiram 75,4% dos longas-metragens e na outra ponta desta tabela as mulheres negras não assinaram a direção, o roteiro ou a produção executiva de nenhum filme nacional naquele ano. No nosso caso, com o nosso documentário assinamos, respectivamente, a direção e a produção executiva, e ainda entramos em circuito comercial. Tem sido uma batalha, matar uns 10 leões por dia, mas fizemos um contrato entre nós de nenhum passo atrás e sempre que alguma de nós pensar em desistir a outra está ali para segurar a barra e fazer seguir em frente, nem que seja aos trancos e barrancos, vamos seguindo em frente, ocupando cada vez mais esses espaços que deveriam ser nosso também. Por conta disto, nos relevaram como a segunda mulher
negra a ter um longa-metragem em circuito comercial em 34 anos, sendo que a a primeira mulher negra foi Adélia Sampaio (foto), com o longa-metragem de ficção “Amor Maldito”, em 1984, sabemos que este tal segundo lugar, que nunca reivindicamos, na verdade são segundos lugares, ocupado por diversas mulheres negras que nos fizeram chegar até aqui e ainda fazem, pois seguimos nos ensinamentos do lema da Marcha das Mulheres Negras: “uma sobe e puxa a outra”. Essa entrada no circuito comercial é para cada vez mais escancarar as portas, para que ano após ano tenhamos novas produções de mulheres negras ocupando esse espaços, sem esquecer que juntas sempre seremos mais fortes.
Então tudo isso que relatei aqui nessa carta virtual, foi para dizer publicamente que eu te
amo Mariani Ferreira, que eu preciso agradecer essa parceria, essa nossa relação construída na base do afeto e na busca por justiça, sem esquecer que a arte tem um imenso poder de atingir milhares de pessoas e por meio dela podemos exercer nossa militância e exigir uma vida mais justa e igualitária para tod@s nós. Por fim, fico do lado de cá da tela no aguardo e ansiosa por seu retorno, minha companheira, parceira, irmã Mariani Ferreira.

bjus

Camila de Moraes
Salvador, 04 de maio de 2018. 




















segunda-feira, 30 de abril de 2018

Crítica ao documentário "O Caso do Homem Errado"

Por Milena Britto 


Hoje fomos ver o filme de Camila de Moraes, O caso do homem errado, um desses filmes que todo cidadão, preto, branco, pobre, rico, deveria ver. É um documentário que trata do caso de um jovem negro do Rio Grande do Sul que foi assassinado pela polícia sob a acusação de ser bandido. Acontece que o jovem era um trabalhador, era honesto, era um marido, era um filho, era um amigo respeitado, amado, conhecido pelo caráter tranquilo e afetuoso. 
Mas o filme não existe só para dizer isso. O que faz o filme é mostrar por dentro da máquina a falência absoluta do estado na garantia à integridade física, moral, humana dos cidadãos que não têm pele clara, que não pertencem às classes dominantes. O estado falha não só porque não protege, mas, sobretudo, porque ele próprio mata. Não é uma conta simples. O racismo em sua violência bruta é uma operação matemática que não cabe em nenhuma estatística pois é engolida por ela. Camila de Moraes consegue dar surpreendentes soluções estéticas a um conjunto de falas, depoimentos, reportagens sobre um caso que marcou a cidade de Porto Alegre na década de 80 e que se estende ao presente de forma crescente. Como se fôssemos nós a procurar nosso ente desaparecido, vamos mergulhando num caos perverso de mentiras e violências a partir dos fatos narrados por envolvidos no caso. Toda a brutalidade do fato é colocada ali no desvendar da manipulação da polícia diante de um corpo abatido por policiais. O corpo vai crescendo durante o documentário, vai nos assombrando, vai se tornando um sujeito e ao final lhe é devolvida a dignidade que lhe roubaram, tornando-o um rapaz vivo e com o sonho de viver o seu casamento feliz e tranquilo. Poucas vezes tenho visto um documentário tocar tão brilhantemente nesse tema que não cansamos de ouvir e de falar que é o racismo. Não existe um homem certo para ser assassinado pelo estado e, certamente, aquele homem que morreu brutalmente violado estava longe de ser alguém que pudesse correr esse perigo. Mas corria: era negro. Sem cair em armadilhas moralistas que poderiam supervalorizar uma vida em relação a outras (afinal, para a sociedade "bandido bom é bandido morto"), o documentário é uma denúncia inteligente do perigo que correm os corpos fragilizados no sistema. A edição primorosa, o olhar, a abordagem e a poesia, que ao final chega ali em uma voz em off nos enchendo o coração de humanidade, fazem deste documentário uma obra rica para o cinema brasileiro. Essa jovem diretora negra merece todos os prêmios que já ganhou e essa obra deve chegar a muito mais pessoas, sobretudo agora, sobretudo neste ano terrível que estamos tendo. Vejam e levem seu amigo, sua prima, seu vizinho, seu aluno, sua namorada, seu professor. O filme está em cartaz no cinema do museu só até quarta-feira.


sábado, 31 de março de 2018

Eu não havia pensado como seria o impacto - Sobre o circuito comercial "O Caso do Homem Errado"

Desde que tínhamos acertado as datas do nosso primeiro circuito comercial do documentário de longa-metragem "O Caso do Homem Errado", dei um jeito de conseguir as minhas passagens para ir à Porto Alegre para poder acompanhar de perto o circuito. Porém, eu não havia imaginado no impacto que essa ação poderia ter em minha vida. Certa vez, na terapia, a psicóloga disse: "Camila, se você não está bem, escreva, desabafe através da escrita. Coloque para fora tudo aquilo que está sentindo". Desde então, tenho escrito, e o palavras enegrecidas tem sido uma fonte para publicar essas angustias, na maioria das vezes, que aperta o meio peito ao ponto de explodir.

Eu não estava preparada. Não estou preparada. Assim como não estava preparada em New York quando me dei conta disso no processo. Quando estava com a presidente da instituição que estava fazendo o intercâmbio e ela perguntou: "Mas se você não fala inglês como irá fazer as entrevistas?" Eu respondi que não sabia, que não havia pensando nisso ainda. Como agora, não havia pensado como receber de volta o sentimentos das pessoas ao assistirem ao documentário. Como absorver toda essa informação?

O circuito terá 12 dias, estamos hoje completando oito dias e eu já estou exausta emocionalmente. Ontem estava com um tremenda dor de cabeça. Sai do cinema e fui andando para casa, para poder tentar pensar um pouco em tudo, mas andei com medo, com o coração apertado. No dia anterior havia ocorrido um debate que para mim foi muito intenso. Tenho evitado falar, pois fico muito emocionada, mas nessa era preciso estar presente, tentei ser firme, mas não consegui e antes de subir ao palco um menino negro rasta saiu após a sessão e disse: "Não é que não considere o debate importante, mas eu preciso respirar. O filme foi muito forte". Eu tentei compreender o que ele me falou, me coloquei no lugar dele.

Em um outro dia uma mulher negra saiu do cinema limpando as lágrimas, bebeu água e ao me olhar começou a chorar compulsivamente e me disse: "Eu não tinha medo até então e o que me deixa mais revoltada é que as pessoas pensam que isso tudo é mimimi nosso". Eu chorei junto. Meninas jovens brancas saíram do cinema e se abraçaram no porta como se uma confortasse a outra.

Temos tido um público muito bom em todos os dias. Eu vou todos os dias para o cinema e observo a reação das pessoa ao sair da sessão. Todas saem pensativas. No debate eu disse: "Se o filme não tocar você de alguma forma, você não é ser humano. É impossível saber dessa, dessas histórias e ficar indiferente". Nas sessões sempre tem um público misto, muitas pessoas negras conhecidas, muitas pessoas brancas que nunca vi na vida. Uma boa repercussão na mídia e lógico com muitos comentários racistas em todas as matérias publicadas sobre o filme.

Ainda não sei como absorver toda essa informação ...

Frustrações: Essa semana saiu o resultado de dois festivais. Um festival nacional específico de documentário e o nosso filme não foi selecionado e uma outra mostra de cinema negro no qual o nosso filme foi selecionado. O que concluir com esses resultados??

Amigas suas e pessoas da família ainda não foram ao cinema, porém aquela vizinha do prédio que só lhe dá oi estava lá e permaneceu no debate. Aquele casal branco do rap que você fala só nas festas estavam lá. O que pensar disso?

As pessoas me pedem o link do filme toda hora e também cortesias. Como responder para cada um que não é possível compartilhar essa informação ou dar todos os ingressos. Os debatedores, cada um foi e pagou o seu ingresso. Achei incrível!!! Para eles sim eu devia ter reservado as cortesia, mas confesso que estou meio atucanada, mais do que o normal, nesses últimos dias.

Enfim, seguimos firme até o final do circuito comercial do documentário "O Caso do Homem Errado", porque temos uma missão e não viemos em vão a esse mundo. Iremos lutar por justiça até o final, porque as nossas vidas negras importam.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Rolezinho no cinema acontece nessa terça-feira em Porto Alegre



A atividade irá levar dezenas de pessoas da comunidade negra para irem ao cinema assistir ao documentário de longa-metragem "O Caso do Homem Errado”, que entrou em circuito comercial na última quinta-feira (22), no CineBancários, no Centro Histórico de Porto Alegre. O “Rolezinho acontece nessa terça-feira (27), às 19h. 




Segundo as organizadoras, Luciana Dorneles e Kenia Aquino, as mesmas que organizaram o rolezinho no cinema para ir assistir ao filme Pantera Negra em fevereiro, acreditam que proporcionar esses rolês entre os negros para assistir a filmes que tenham relação com a negritude fortalece cada vez mais o indivíduo. “Quando fizemos o primeiro evento, pra assistir ao Pantera Negra, nos sentimos em casa. Desde as piadas do filme, as cenas tristes, tudo que sentimos foi no coletivo. A representatividade disso é imensurável. Estamos sempre passando por cenas no dia a dia que nos machucam enquanto cidadãos negros, e nesses momentos de lazer e político  assistir filmes que nos retratam que falam de nós todos é maravilhoso”, afirma Kenia Aquino (foto).   





Na mesma linha de pensamento Luciana Dornelles (foto) completa, “Embora a proposta do documentário ‘O Caso do Homem Errado’ seja diferente da proposta do Pantera Negra, vamos novamente nos reunir com os nossos sem precisar explicar o óbvio do nosso dia a dia. As conversas e bate papo que rolam depois são muito construtivas e trazem uma reflexão para a vida. Poder proporcionar esses rolês é poder trazer esses debates saudáveis para a negritude”. 




O filme aborda a questão do genocídio da população negra e conta um caso específico que ocorreu nos anos 1980 em Porto Alegre quando o operário negro Júlio César foi executado pela Brigada Militar ao ser confundido com um assaltante. De acordo com a a diretora do filme, Camila de Moraes, uma das proposta do trabalho é poder ampliar o debate sobre a questão do racismo que mata a população negra todos os dias.

“O Caso do Homem Errado” teve a sua estreia nacional no ano passado (2017) no 45º Festival de Cinema de Gramado e ganhou o prêmio de melhor longa-metragem no 9º Festival Internacional de Cine Latino, Uruguayo y Brasileiro, em Punta del Este. O circuito comercial  em Porto Alegre permanece até o dia 04 de abril, no CineBancários.

SERVIÇO
O Quê: Rolezinho no cinema para assistir ao documentário “O Caso do Homem Errado” 
Quando/Horário: 27.03.2018, às 19h  
Local: CineBancários (Rua General Câmara, 424, Centro Histórico de Porto Alegre) 
Valor do Ingresso: R$12,00 (inteira) / R$6,00 (meia) 
Classificação: 10 anos

Ficha Técnica
Produtora: Praça de Filmes
Diretora: Camila de Moraes
Roteiro: Camila de Moraes, Mariani Ferreira e Maurício Borges de Medeiros
Produção Executiva: Camila de Moraes e Mariani Ferreira
Elenco: (Depoentes) Juçara Pinto, Paulo Ricardo de Moraes, Ronaldo Bernardi, Luiz Francisco Corrêa Barbosa, João Carlos Rodrigues, Jair Kirschke, Edilson Nabarro, Renato Dornelles, Paulo Antônio Costa Corrêa, Waldemar Moura Lima, Vera Daisy Barcellos, Romeu Karnikowski, Aline Gerber
Direção de Fotografia: Maurício Borges de Medeiros
Trilha Sonora: Rick Carvalho
Montagem: Maurício Borges de Medeiros

Desenho de Som: Guilherme Cássio dos Santos