domingo, 9 de outubro de 2016

O Retorno - "Respeito muito minhas lágrimas. Mais ainda mais minha risada"

Assim que o mês de setembro início eu comecei a falar que o meu tempo estava acabando, que não ia mais dormir. Aí as pessoas me respondiam que eu ainda tinha um mês. Porém passou tão rápido. Sabe quando aquilo está tão bom, passa num piscar de olhos e você nem sente? Foi bem assim que aconteceu. Eu acordava, sai cedo, tentava fazer o máximo de atividades na rua, voltava exausta, dormia e acordava já para sair.

A minha intenção era fazer um diário de bordo semanal. No mês de agosto cumprir essa meta rigorosamente. Sentia vontade de escrever todo o momento, mas no mês de setembro parecia que não tinha tempo para sentar na frente do computador e achar as palavras corretas para colocar no texto, pois precisar sentir na pele toda aquela emoção, vivenciar o momento, porém também precisava compartilhar tudo que estava sentido, pois como estava lá do outro lado da América sozinha, sentia a necessidade de falar. Não podia ligar para a família toda hora, mas podia escrever numa rede social pequenos posts do que estava ocorrendo. Essa experiência foi tão boa quando estava lá, pelas curtidas e comentários. Já estava até pensando em fazer carreira de comediante. Mas o retorno foi melhor ainda. Hoje vai completar uma semana que voltei para o Brasil e tenho encontrado as pessoas nas ruas, elas me cumprimentam com um sorriso enorme no rosto. Trocamos olhares largos e risadas altas. Elas me contam que acompanharam tudo de perto, em tempo real, que também já podem dizer que estiverem em New York pelo meus relatos, que deram muitas risadas com os micos vividos. Comentei com uma que iria ter um lançamento da revista e que ia ter uma conversa sobre essa experiência para contar como foi a temporada lá e ela respondeu: "Eu já sei, acompanhei tudo de perto. Uma diva. Foi muito legal mesmo". É tão bom ouvir isso. Saber que é possível para qualquer um de nós. Precisamos acreditar nos nossos sonhos e ir em buscar deles para torná-los realidade. Outra pessoa me disse que achou estranho eu, Camila de Moraes, postar fotos toda hora, isso não era do meu fetil. Respondi: "Gente, não é toda hora que eu estou em New York. Não sei quando eu vou voltar. É tudo muito novo para mim. Então eu vou postar tudo, quero poder compartilhar esse momento com quem estiver interessando".

Estados Unidos com um todo é considerado "um sonho americano". E não era diferente comigo. Eu sempre quis ir conhecer a "capital do mundo". E eu tive a oportunidade de ir em uma condição favorável, fazendo uma residência artística para ficar dois meses na cidade para fazer o que eu realmente gosto, que é escrever para a revista eletrônica Acho Digno. O Projeto Identidades Transatlânticas, selecionado em um edital de cultura do estado da Bahia me possibilitou essa vivência. Eu acreditei que seria possível, pois já havia inscrito em outro edital, tinha sido aprovada, mas no final não fui selecionada, mas não desisti. Ainda bem!! Continuei insistindo. Acreditando ser importante o que fazemos, o que cada um faz, pois queremos contar a nossa história. Por isso, escrevo o trecho da música de Caetano Veloso "Respeito muito minhas lágrimas. Mais ainda minha risada". Era só isso que fazia lá e aqui lembrando dos momentos. Eu chorei algumas vezes. Chorei por não acreditar que o meu sonho estava se tornando realidade. Chorei porque não conseguia me comunicar, logo eu que vivo disso, trabalho com isso, não conseguia manter um dialogo com as pessoas de lá. Creio que isso foi o mais difícil dessa viagem. Por mais que em algumas vezes tivessem algumas pessoas para fazer a tradução, não era a mesma coisa, nunca a conversa era inteira. Que aguinia que me dava. Uma sensação de impotência e perceber o quanto é importante saber outro idioma. Quero que meus sobrinhos desde pequenos saibam outros idomas, pois me parece ser mais fácil aprender enquanto criança. Não só os meus sobrinhos, mas todos. Para além das lágrimas teve muitas risadas, uma das minhas características é o riso alto. Não consigo controlar. Então, respeito todos esses sentimentos vividos profundamente entre lágrimas e risadas.

Infelizmente, hoje eu tenho medo de viver no Brasil.No meu país, num país que está extremamente violento com um governo que não está preocupado com a sua nação. Eu falei, se eu pudesse eu não voltava. Eu vi outra realidade, outras culturas convivendo juntas, não quero voltar para esse mundo de cabresto. Minha família negra está sendo morta a todo instante, ao mesmo tempo meus irmãos negros estão matam uns aos outros para poder tentar sobreviver. Eu não quero mais ver e viver isso. Existem tantas outras formas de pensar, ser e agir. Podemos fazer a diferença. Podemos ser diferentes. Eu fico triste em pensar que eu preciso sair do meu país para ter uma vida feliz e digna. But, quero fazer isso nesse momento. Eu quero viver! Quero ser feliz sem medo de ser morta. Sem horário para andar na rua. Sem corrupção. Quero ter um salário digno que condiz com o trabalho que exerço.

"Eu existo comunidade!". Essa era uma fala de uma personagem de um espetáculo teatral no qual eu fiz a produção. Quando escutei isso, bateu tão fundo a identificação. Vivo em um país racista que se esconde atrás de uma máscara chamada "democracia racial, aqui existe", que se diz um país mestiço, que chama as pessoas de negras de parda e morenas, mas que discrimina pelo fato de ter a melanina acentuada. No auge dos meus quase 30 eu não sei mais conviver com essa questão. Não quero enlouquecer, não quer surtar, mas quero viver tudo que há de melhor com leveza, com um sorriso no rosto e dinheiro no bolso.

Em New York conheci muitas pessoas que foram em busca desse tão famoso sonho americano, mas que vivem com depressão, pois a realidade é muito dura e cruel não só aqui no Brasil, mas lá também. Porém, de alguma forma, ainda é melhor viver em uma condição ruim lá  do que voltar para o Brasil e viver em uma condição ruim aqui, porque o ruim aqui é ruim mesmo, lá ainda dá para ser ruim e ter um iPhone 6 e comida da geladeira, tipo assim.

Então, o que me resta nesse momento é respirar fundo, respeitar as minhas lágrimas, a minha saudade de NY, as minhas risadas e achar outras possibilidades de vivência nesse país no qual nasci e que meus antepassados construíram com muita garra, dor, suor e sofrimento. No entanto, temos a marca de sermos fortes e alegres. Vamos buscar essa força para seguir em frente nessa conjuntura atual difícil pela qual nos encontramos.


Obs.: Esse texto eu iniciei pensando em fazer um resumo do que foi o meu mês de setembro em New York, até por isso o título, mas a escrita me levou em outra direção. Porém, o próximo texto será esse resumo com algumas fotos de lá. 

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