quinta-feira, 23 de março de 2017

#Quase30 - A Crise dos 30 anos


Preste a completar 30 anos me encontro em uma encruzilhada cheia de conflitos na cabeça que nem eu aguento suportá-los. Na maioria das vezes parecem que vão me sufocar, que serei engolida por tantos pensamentos. Eles conseguem, não sei como, serem mais rápidos que as minhas próprias ações. 

Estamos na fase adulta, dizem que nesse período da vida é preciso ter uma família constituída, uma estabilidade financeira, um imóvel, e a vida segue bem e confortável com a rotina de um trabalho de 60 horas semanais (para se aposentar com 85 anos) e cuidados com a família (marido/esposa, filhos, compra de final de mês, material escolar, etc e tal). Bom, chegamos na fase do meu desespero. Não tenho essa vida patrão formada e, no fundo do coração, acho que não é isto que quero para mim, porém me preocupa muito em não ter uma estabilidade financeira, em não conseguir sobreviver de forma digna com aquela profissão que escolhi e me ver obrigada ir em busca de outros trabalhos para poder dar conta das demandas financeiras. Em não seguir uma vida acadêmica, pois todos almejam por isso (mestrados e doutorados), dissertações e teses, que na maioria das vezes fica só no papel e não chega de fato naquela comunidade, naquelas pessoas. Como fazer/construir uma mudança coletiva? Realizar oficinas nas comunidades é a única opção? É mais imediato que um artigo escrito e publicado em alguma revista acadêmica? 

Não sei as respostas, mas sei que o que está acontecendo em minha vida é fruto das escolhas que fiz. Essa semana me senti estagnada, pois aqueles conhecidos estão todos com os seus respectivos mestrados e doutorados e me vi fazendo uma comparação entre nossas vidas. O que de fato eu fiz em quase 30 anos de existência? Não tenho filhos. Não consigo sobreviver de forma digna da profissão que escolhi desenvolver. Não tenho um imóvel no meu nome. Não plantei uma árvore e muito menos escrevi um livro. Muitas vezes brigo com meus familiares, deixando de falar com alguns deles. Não sei lidar com a questão da velhice se aproximando na família. Por mais que os outros digam que a culpa da queda não foi minha, era eu que estava com ela em casa. Ela estava sob os meus cuidados e eu não consegui cuidar me minha vó e hoje estamos vivendo esse quadro de alzamier tão doloroso. Não quero chegar nessa idade e depender de outras pessoas para cuidar de mim, sem ao menos conseguir fazer as necessidades básicas. Prefiro morrer antes dessa fase. 



Diante disso, a única pergunta que ronda em minha cabeça é essa: O que eu fiz da minha vida nesses quase 30 anos de existência? Consegui realizar um sonho de ir para Nova Iorque e viver plenamente tudo que a cidade podia me oferecer. Sem dúvidas foi o momento mais feliz que já vivi. Essa experiência foi fruto de um trabalho desenvolvido com comunicação e cultura negra (minha paixão, minha militância). Nessa ocasião, por alguns meses acreditei que tudo era possível. Que fazer um trabalho de qualidade pode abrir portas e lhe levar para onde deseja. Cumpri uma missão. Dei um retorno de todo um investimento que foi feito em minha carreira, passando pelos meus pais até ao CECUNE quando fez a parceria com uma instituição de ensino superior e proporcionou bolsas integrais de estudo para pessoas negras de baixa renda. 

Na verdade, o que eu penso que quero, mas não sei se é real, ainda tenho minhas dúvidas, era/é poder ter estabilidade financeira e viajar pelo mundo, fazer reportagens, produzir a revista eletrônica Acho Digno e poder pagar todos os profissionais envolvidos em cada edição. Eta, sonho de consumo bom. Por que isso é impossível? Não estou pedindo coisas improváveis de acontecer, como ter um casamento feliz e fiel (risos). Vejo pessoas próximas em relacionamentos frustados e não consigo compreender porque se submetem em estar naquela condição. Porém, confesso que é muito chato toda hora ouvir as mesmas perguntas. Você vai casar quando? Como não quer ter filhos? Você veio sozinha? Eu nunca vi ninguém fazer essa última pergunta para um homem quando chega desacompanhado em uma festa, porém constantemente me fazem essa indagação, e acreditem não é porque estão preocupados com a minha segurança. 


Enfim, estou em crise. Na famosa e temida crise dos 30. Será que quando chegar no dia 21 de abril (feriado porque eu nasci) terei todas as repostas das perguntas colocadas acima? Quando completar 30 anos a crise vai embora e tudo estará resolvido como num passe de mágica? Angustias e anseios. Queria poder pensar menos. Queria poder me satisfazer com essa vida padrão pré determinada. Queria ser simplesmente Camila de Moraes, sem amarras, sem rótulos. Queria ou quero? Enfim, quase 30, quase louca, quase adulta, quase sem coragem de enfrentar o mundo lá fora.

Fotos: Alisson Batista

0 comentários: