domingo, 26 de março de 2017

Rasta - A volta dos que não foram


Cá estou eu novamente com o rasta em meus cabelos. “A volta dos que não foram”. Desde que me conheço por gente sempre tive ao meu redor pessoas próximas que usam rasta, entre eles incluindo meu pai (com mais de 27 anos sem corta o cabelo), o painho Luiz Orlando, o militante negro Caco (que muitas pessoas confundiam com o meu pai biológico), além do pessoal da banda de reggae Produto Nacional que eram amigos dos meus pais e por isso muito próximos. Porém, também existiam mulheres rastas, entre elas a minha madrinha Maria Conceição Fontoura e as militantes negras Luiza Bairros, Lucia Brito e Nina Fola. Depois teve as mais jovens Malizi Fontoura, Dedy Ricardo e Kizzy Barcelos. 

Bom, então esse universo rasta povoava as cabeças de uma população gaúcha, que para mim era de família e amigos, porém que hoje percebo que são de personalidades, intelectuais negros /negras que fizeram e fazem a nossa história. Por influência de pai, de mãe (que sempre quis ter e sempre incentivou), de irmão que teve por alguns anos, de prima e madrinha, e do painho baiano (não o biológico que tem esse mesmo apelido, mas o outro), decidi fazer o rasta, aos 14 anos, depois de um verão em Salvador, no qual eu só via pessoas rastas pelas ruas, voltei para capital gaúcha convicta desse pensamento. Me tornei rasta (de cabelo, não da cultura rastafari), de forma natural, deixando o cabelo pegar o formato e a espessura que lhe cabia. 



Nesse mesmo período entrei no Curso Normal (magistério), era a única professora infantil que virá rasta. Logo em seguida entrei no Curso de Comunicação e lá também era a única estudante rasta.  No entanto, eu era meia rasta, só da metade da cabeça para trás, na frente eu deixava crespo para poder modificar, fazer tranças rasteira, solta ou simplesmente deixar black. Vivia em constante mudança, inclusive na cor. Já pintei de loiro, vermelho, e certa vez, ao mesmo tempo pintei de preto, vermelho e loiro. Isso teve consequências. Meu rasta, em 14 anos, nunca passou da cintura, e olha que o objetivo era chegar aos pés como o de painho (o biológico), porém ele sempre quebrava. 

Não lembro de ter problemas em questão de trabalho por ostentar um rasta, nem nos estágios mais formais. Sempre me senti bem em ter esse tipo de cabelo, por ser diferente, por poucas pessoas usarem na época, por ser meia rasta, ou ser a “irmã confusa”, como alguns amigos me chamam por não decidir se queria ser rasta ou black. Na verdade acredito que nunca me encaixei em determinados padrões e isso foi possível pelos ensinamentos que tive desde pequena, no qual aprendi que posso ser o que eu quiser. Enquanto pessoas brancas acham que o nosso conhecimento significa ser “negas metidas”, somos na verdade pessoas que conhecem a nossa história, a história brasileira, a nossa cultura e de nossos ancestrais sempre respeitando, e se isso significa ser metida para essas pessoas, eu digo: “Sim, eu sou metida, porque eu posso e porque voltei a ser rasta, meu bem. Voltei para minhas origens”. 




Porém, preciso confessar que quando estava com 28 anos prestes a completar 29 anos, quis mudar, saber como era o meu cabelo crespo, pois não lembra como era ter black e então tomei a decisão de cortar o rasta. Fiquei com o black bem curtinho e creia foi mais complicado do que eu podia imaginar. Os cuidados, os cremes, o corte, tudo era diferente. Antigamente eu só me preocupava em passar o óleo de copiaba e apertar o rasta, agora tinha que me dedicar diariamente quase uma hora aos cabelos para deixar de uma forma que me agradece. Em um ano de black conheci outra realidade e entrei em outros debates. Percebi que meu cabelo cresce para cima, não descobri qual era o tipo do crespo (risos), mas verifiquei que cresce rápido, que não são todos os shampoos que podia usar nem cremes, e que manter um black significa ter dinheiro. 


Saudosa e cansada dessa função toda do black, após um ano, voltei para o meu rasta, mas para fazer diferente novamente, dessa vez fiz a cabeça toda, pois não tive paciência para cultivar naturalmente como da primeira vez. Agora contei com ajuda de Zeus e em apenas quatro horas estava de volta ao mundo rasta. Porém dessa vez eles ainda estão curtos. Quero pintar. Quero eles nos pés logo. Quero sacudir as minhas raízes. Quero ser rasta por mais alguns anos enquanto não sentir a necessidade da mudança. Quero poder voltar a fazer o lendário cumprimento: “Ea, rasta!”.


“Quando me vê abre os braços, me de um sorriso, sou eu negro lindo, sou eu, sou eu!” (Parangolé) 









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