quarta-feira, 5 de abril de 2017

Hoje olhei nos olhos de um assassino




Encarei com um olhar firme, com a respiração segura, tentando não demonstrar medo, porém no ar havia um cheiro de tiros, dois a queima roupa para ser mais específica, havia uma execução de um jovem negro nas mãos daquele cidadão que estava em minha frente. E ali estava eu querendo obter uma explicação e ao mesmo tempo estava encarregada, naquele momento e, em todos os minutos da minha vida, pela proteção do meu corpo, como diz Ta-Nehisi Coates, no livro “Entre o Mundo e Eu”, pois sabemos que os departamentos de polícia de meu país fora munido da autoridade para destruir meu corpo, destruir os corpos de meus semelhantes que tem a pigmentação da pele mais escura. Porém, esses destruidores raramente serão considerados responsáveis, pois eles são apenas homens que fazem cumprir os caprichos de meu país.

Então, depois de um período de investigação chegamos ao seu refúgio. Como se diz hoje em dia “eu tremi na base” e, em questões de segundos, senti as mais diversas sensações que pode-se imaginar. Um calor tomou conta de meu corpo, porém o suar que escorria de minhas mãos era extremamente frio, uma dor imensa surgiu em minha barriga como se não pudesse conter o líquido que poderá escorrer por minhas pernas. Indaguei, tentei argumentar e recebi uma resposta, uma resposta de como age a sociedade na qual vivo e ao bater o portão e dar as costas algo aconteceu … ele voltou. Eu respirei fundo e ele apresentou o racismo institucional da corporação. Novamente foi embora, mas dessa vez não voltou mais. Parecia que não escutava a minha voz alta do lado de fora do portão solicitando por mais respostas. Senti uma dor no peito. Senti raiva. Fiquei confusa e só conseguia pensar como seria a sensação de uma pessoa que sabe que irá morrer, mas sem saber o motivo, sem sequer ter o direito à defesa.

Houveram mais duas tentativas fracassadas, pois assim como eu outras pessoas anseiam por estas respostas. Mas não foi apenas um assassino, houveram outros. Falei com um por telefone e encontramos outro em um lugar público. Em seu tom de voz, em um exemplo para elucidar, então um caso fictício, um forte tom de ameaça pairava no ar. No entanto, milagrosamente, ninguém estava envolvido no caso.

Moramos na mesma cidade, andamos nas mesmas ruas e o meu olhar cruza os olhos de assassinos frios e calculistas. O meu irmão de cor foi morto, o padrinho de meu irmão foi morto, o irmão de criação de meu pai foi morto, o marido da amiga de minha mãe foi morto, uma família inteira foi morta, uma sociedade é executada a todo instante e é preciso proteger os nossos corpos, os nossos corpos negros, pois o nosso sangue escorrega pelo chão neste instante e para não nos afogarmos em um mar vermelho continuaremos olhando nos olhos dos assassinos e exigindo justiça.


1 comentários:

LUTA NEGRA disse...

Sem palavras pra essa covardia... E se vai mais um de nós...