quinta-feira, 20 de julho de 2017

A dor é verdadeira. A causa é a minha existência

Artigo feito para revista eletrônica Cia Ponto Art de Salvador
Por Camila de Moraes 






Com esse sentimento compartilho com os leitores da revista eletrônica Cia Ponto Art, de Salvador/Bahia, essa reflexão que tanto me angustia, essa dor verdadeira, que nos mata a todo instante, pois estamos falando do genocídio da juventude negra. Segundo o relatório da CPI Senado sobre o Assassinato de Jovens no Brasil, em meados de 2016, mostrou que todo ano 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. 82 jovens são mortos diariamente. 77% são negros. Por essa razão gritamos que vidas negras importam, a minha vida importa, a vida da minha família (população negra) importa. Então parem de nos matar. 



Seguindo na reflexão do nosso título, "a causa é a minha existência”, conseguimos no dia 11 de maio de 2017, concretizar um projeto de vida que durou oito anos para ser concluído, o documentário de longa-metragem chamado “O Caso do Homem Errado”. A pré-estreia do filme ocorreu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que segundo dados do relatório Desenvolvimento Humano para Além das Médias, divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no início do mês de maio deste ano, a capital gaúcha é a cidade com maior desigualdade entre negros e brancos no Brasil. A obra fílmica aborda um caso específico que aconteceu no dia 14 de maio de 1987 com operário negro Júlio César de Melo Pinto que foi executado pela Brigada Militar do estado por se enquadrar no perfil que a sociedade considera suspeito e violento. Nessa data havia ocorrido um assalto em um supermercado e Júlio César, que morava nas proximidades teria ido conferir o conflito, porém ele tinha epilepsia e nesse momento teve uma crise, alguns populares o acusaram de fazer parte do assalto. Sob os flashes do repórter fotográfico Ronaldo Bernardi, que registrou toda ação policial, colocando Júlio César vivo dentro da viatura com apenas um machucado na boca, devido ao estamento que sofrerá na hora por alguns policiais. Em seguida, o repórter se dirigiu para o Hospital de Pronto Socorro para registrar a chegada de Júlio César ferido nessa ação. Porém,  Bernardi levou sete minutos para chegar no hospital e a viatura levou mais de 30 minutos e ao chegar no HPS Júlio César estava morto com dois tiros. A partir dessas fotos, Júlio César vivo dentro da viatura e morto no HPS, foi possível constatar que houve uma execução no percurso.  

Esse caso ganhou notoriedade na época e ficou conhecido como “O Caso do Homem Errado”, o mesmo título do
documentário. Foi uma luta da família, do movimento negro em conjunto com o movimento de direitos humanos, que conseguiram comprovar o assassinato, descobrir os policiais envolvidos e exigir justiça do estado. Porém, até os dias atuais a família de Júlio César nunca foi indenizada financeiramente, é preciso lembrar que dinheiro nenhum irá trazer uma vida de volta, mas é extremamente necessário para tentar manter a família estruturada financeiramente. A minha dor permanece viva após trinta anos, pois quantos Júlios César são assassinados diariamente em nosso país e não tem nem o direito de serem enterrados. A dor de quem fica por trás desse contexto todo é muito cruel e dura. Essas mortes desestrutura famílias inteiras, desestrutura uma sociedade. Nesses episódios aparecem as vítimas ocultas, as mulheres, mães, esposas, irmãs, que permanecem lutando para sobreviver. No caso do documentário, Dona Maria Sebastiana (mãe) e Juçara Pinto (esposa), são as nossas guerreiras nessa luta, devido a sua força seguimos na batalha por nossa juventude negra viva. 

O racismo no Brasil é estrutural. O documentário “O Caso do Homem Errado” tem a proposta de abrir uma reflexão com a sociedade sobre o genocídio da população negra. Com esse pensamento, não fizemos apenas uma exibição do filme no dia 11 de maio de 2017, antes fizemos questão de fazer um ato político na Esquina Democratica, no centro de Porto Alegre, e seguimos em marcha até a Cinemateca Capitólio Petrobras. Com cartazes que levavam nomes de jovens negros mortos ou que estão em processo de injustiça, sempre com a mensagem que vidas negras importam. O filme agora irá fazer uma carreira por festivais e a sua previsão de entrar em cartaz, nacionalmente, é para o início de 2018. 

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